segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Corpo Seco


Uma súbita e quente rajada de vento levantou com ímpeto os particulados áridos e as folhas avulsas daquele vasto campo à beira da estrada. Embora marcante, a ação da ventania não se mostrou duradoura, não tardando para que a calmaria voltasse a reinar nas cercanias do distante pomar.

Nenhuma anormalidade se mostrava evidente nos numerosos e diversificados exemplares frutíferos ali expostos. A exceção se fazia valer numa alta e frondosa mangueira, cujos frutos jaziam no chão. A exuberância em degrade verde e dourado era assaltada por uma ação invisível e avassaladora, a qual tomava para si o viço marcante dos frutos, entregando a eles, em contrapartida, um revestimento acinzentado e opaco, um frágil castelo elevado aos céus pelo delicado beijo de uma simples corrente de ar.

O Deus dos Desejos Sórdidos

A batida frase de que só damos valor a uma pessoa quando a perdemos é uma das premissas mais verdadeiras senão a mais verdadeira de todas as premissas. Talvez ninguém nunca tenha parado para pensar como a vida segue um ritmo cíclico mediante as nuances e fatos sobre o valor da perda. Muitas das vezes, estes fatos simplesmente são inferidos ao mero acaso. Porém, nada é por acaso, encontrar um velho amigo e uma antiga namorada depois de tanto tempo num coletivo ou numa fila de banco pode ser considerado um acaso, mas não a premissa de que só damos valor às pessoas quando as perdemos, pois no cíclico ritmo da vida, ora essa pessoa lhe é essencial, ora um objeto que pode ser substituído por uma aventura extraconjugal ou por uma obsessão desmedida por algo que no fim, acaba não valendo a pena. E quando todas as frustrações vêm à tona num verdadeiro e devastador tsunami de desolações, o cíclico ritmo da vida devolve a essência inicial a qual aquela pessoa representava, e ai, meu chapa, é tarde demais, pois a dor da ausência aperta o coração como se mãos espectrais atravessassem o peito. E foi nesse tsunami de desolações que eu dei falta de Maria Luíza, depois eu apenas quis matá-la.


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A Coleção De Bonecas

O céu estava azul e limpo, nem se quer uma nuvem no céu apaziguava o sol leve, porém intenso. O trigo dourado refulgia sob seus raios, tombado pela leve e gélida brisa que soprava durante a manhã. A pequena camponesa, tão branca quanto à neve que cairia nos próximos meses, com as bochechinhas gorduchas rosadas pelo frio e de cabelos tão dourados quanto o trigo, andava pelo meio da plantação, olhando os pequenos insetos que por ali ficavam. Eventualmente tropeçava em um ou outro buraco.

– Bom dia, senhor Espantalho!- disse ela contente para o velho, murcho e esfarrapado espantalho que ela tanto insistira para a mãe costurar. – Você nunca me responde não é mesmo?

O espantalho permaneceu imóvel, na sua quietude de farrapos e migalhas.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O Mágico e o Mago


Praça da Sé, São Paulo. O jovem de roupas pretas, camisa aberta e maquiagem negra nos olhos sabe que, naquele momento, a multidão à sua volta está torcendo para que tudo dê errado e eles tenham uma bela história de desgraça para contar, sobre um idiota aveadado metido a mágico que foi parar no hospital.

Ele respira fundo e se concentra no truque que vai executar. Afinal, se der errado, ele realmente pode acabar no hospital.

A imensa cruz em X está deitada no chão. Ele caminha e se deita sobre ela. Seus assistentes se aproximam e, com auxilio de pesadas marretas, começam a pregá-lo na cruz, com grossos pregos, que fazem jorrar sangue de suas mãos.

Seu rosto se cotorce como se suportasse uma dor lancinante em silêncio. A platéia se admira, pois a visão de alguém sendo crucificado tem sempre um apelo muito forte.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

O Noivado Infeliz De Aurélia

Os fatos que se seguem foram narrados numa carta que me escreveu uma jovem da bela cidade de San José.

Devo esclarecer que não conheço, em absoluto, a signatária do referido documento, que se assina simplesmente Aurélia-Maria – provavelmente um pseudônimo.

A pobre garota tem o coração transtornado pelos infortúnios que vem sofrendo. E sente-se tão perturbada pelos conselhos, uns diferentes dos outros, de amigos ignorantes e inimigos insidiosos, que não sabe mais o que fazer mais para se ver livre da teia do destino, na qual parece encontrar-se presa para sempre.


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Matéria Cinzenta - Stephen King

Durante toda a semana vinham prevendo uma tempestade do norte e ela chegou por volta de quinta-feira, uma nevasca violenta, com ventos uivantes, que deixou uma camada de dez centímetros de neve às quatro da tarde e não deu sinal de arrefecer. Os quatro ou cinco de costume estavam reunidos em torno do Confiável no Coruja Noturna de Henry, que é o único estabelecimento para cá de Bangor que fica aberto dia e noite.  

Henry não faz grandes negócios ― o movimento, em grande parte, resulta de vender cerveja e vinho aos universitários ―, mas ganha o suficiente para viver bem e o bar é um bom lugar para nós, velhos aposentados, nos reunirmos e falarmos de quem morreu e de como o mundo está indo para o brejo. 

Nessa tarde, Henry estava ao balcão; Bill Pelham, Bertie Connors, Carl Littlefield e eu estávamos perto do fogão. Lá fora, nenhum carro se movimentava na Ohio Street e os tratores de limpar neve trabalhavam como loucos. O vento soprava forte, formando montinhos de neve que pareciam o dorso de um dinossauro. 

O Círculo De Sal

"Meu Deus, como eu vou sair dessa agora?"

Sentada no chão, tendo à sua volta apenas um círculo feito de sal grosso, Thammires forçava o rosto contra as palmas das mãos, em desespero. E, diga-se de passagem, seu desespero era plenamente justificado pelos acontecimentos daquela noite.

Olhou a sua volta pela milésima vez: o pequeno porão, que os donos da casa haviam convertido em despensa, iluminado pela luz de uma velha lâmpada de sessenta watts, não apresentava mais nenhuma saída além da porta que a levaria de volta para o andar térreo da casa. E, naquela casa, ela nunca mais iria pôr os pés. Aliás, se tivesse seguido seu pressentimento inicial, não estaria ali agora. Não estaria naquela situação, agora. E Jared ainda estaria vivo.

A lembrança de Jared trouxe lágrimas novamente aos seus olhos, mas ela forçou-se a não chorar. Haveria tempo para isso mais tarde. Chorar agora seria um luxo que ela não podia sustentar. Precisava estar focada em sua sobrevivência.

Continuou observando o porão. Não havia janelas. Isso era bom. Não podiam entrar. Mas isso também era péssimo. Ela não podia sair. Mas também, sair iria resolver alguma coisa? Sua última tentativa de deixar a casa havia sido desastrosa. Ela estava encharcada. Enrolou-se em alguns panos de chão que encontrou no porão. Tinha que evitar a hipotermia a todo custo. Fosse devido ao frio ou ao cansaço, não podia dormir, tinha que estar atenta.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O Homem Que Adorava Flores - Stephen King


No início de uma noite de maio de 1963, um jovem com a mão no bolso subia energicamente a Terceira Avenida em Nova York. O ar era suave e lindo, o céu escurecia gradativamente de azul para o belo e tranqüilo violeta do crepúsculo. Existem pessoas que amam a metrópole e aquela era das noites que motivavam esse amor. Todos os que estavam parados às portas das confeitarias, lavanderias e restaurantes pareciam sorrir. Uma velha empurrando dois sacos de verduras num velho carrinho de bebê sorriu para o jovem e o cumprimentou 

― Oi, lindo! O jovem retribuiu com um leve sorriso e ergueu a mão num aceno. Ela seguiu caminho, pensando: Ele está apaixonado. 

O jovem tinha aquela aparência. Usava um terno cinza-claro, a gravata estreita ligeiramente frouxa no colarinho, cujo botão estava desabotoado. Tinha cabelo escuro, cortado curto. Pele clara, olhos azuis-claros. Não era um rosto marcante, mas naquela suave noite de primavera, naquela avenida, em maio de 1963, ele era lindo e a velha refletiu com instantânea e doce nostalgia que na primavera qualquer pessoa pode ser linda... se estiver indo às pressas encontrar-se com a pessoa de seus sonhos para jantar e, talvez, depois dançar. A primavera é a única estação em que a nostalgia parece nunca tornar-se amarga e a velha seguiu seu caminho satisfeita por haver cumprimentado o rapaz e alegre por ele haver retribuído o cumprimento erguendo a mão num aceno.