quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O Tradutor

Quando a proprietária do apartamento me disse, muito a contragosto, que o inquilino anterior havia morrido ali, na hora me ocorreu "O Inquilino", meu filme preferido do Polanski, apesar de não ter sido o caso. O inquilino anterior não tentara o suicídio. Foi encontrado morto depois de um mês quando o mau cheiro começou a impregnar o andar. Causa da morte: infarto fulminante. Segundo consta era solitário e anti-social. Como eu. Ela havia ocultado o fato dos pretendentes anteriores, mas não contara com a tagarelice dos vizinhos, o que resultou em sérias dores de cabeça. Desde então resolveu abrir o jogo logo de cara, rezando intimamente para encontrar um inquilino não supersticioso. Demorou, mas apareci.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O Retrato da Cabocla


Era uma casa simples de pau a pique, móveis rústicos em poucas quantidades e a poeira estavam ali de propósito.

Era uma casa dentro do museu, a casa da cabocla, assim era chamada e atraia muitas visitas sempre, um movimento dos turistas que sempre queriam passar pela casa da cabocla e ver cada detalhe, cada palha, tecidos de xadrez, cada babadinho das toalhas que deixavam a casa feminina. Queriam ver os vestidos feitos pela própria cabocla e também explorar os quitutes de mentira que colocaram de enfeite sobre a mesa e os armários na cozinha.

Nesta casa, bem no centro da casa, na sala, havia um quadro, um retrato grande de uma cabocla, bonita com seus cabelos presos possivelmente em um coque, a boca cerrada e um par de brincos de pérolas. A sobrancelha bem feita e os olhos fundos, porém vivos, acompanhava cada pessoa que por ali passava.


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Brincando com o Desconhecido


Sexta-feira, 23h50min. Acenderam algumas velas vermelhas pelos cantos da sala, sete amigos sentados formando um círculo e, no centro deles, uma tábua contendo todos os algarismos, todos os números de 0 a 9, um SIM e um NÃO. Temerosos, mas excitados com o que poderia acontecer, olham um na face do outro. Com um sinal de concordância dado por Michel, o mais velho entre eles, Rafael colocou sua mão sobre o copo virgem que se encontrava com a boca para baixo sobre a tábua: 


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A Pata do Macaco

Lá fora, a noite estava fria e úmida, mas na pequena sala de visitas de Labumum Villa os postigos estavam abaixados e o fogo queimava na lareira. Pai e filho jogavam xadrez: o primeiro tinha idéias sobre o jogo que envolviam mudanças radicais, colocando o rei em perigo tão desnecessário que até provocava comentários da velha senhora de cabelos brancos, que tricotava serenamente perto do fogo.

– Ouça o vento – disse o Sr. White, que, tendo visto tarde demais um erro fatal, queria evitar que o filho o visse.

– Estou escutando – disse o último, estudando o tabuleiro ao esticar a mão.

– Xeque.

– Eu duvido que ele venha hoje à noite – disse o pai, com a mão parada em cima do tabuleiro.

– Mate – replicou o filho.


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Bruxaria


Palha no fogo, e ele sobe, aumenta, esquenta meus pés. Remexo e giro o líquido, no outro sentido, e as bolhas tornam-se lentas, a estourar preguiçosas. Tornam-se grossas, azuis, e índigo também é a fumaça que agora se desprende, em espirais loucas, alucinadas, deixando a visão turvada, visão que não é minha, inflando o lugar em êxtase. Uma bolha estoura, minha pele sua, tremendo de gozo pelas carícias da fumaça, ansiando as delícias cantadas em seu aroma. Mas espero, me contenho, ou outras vontades o fazem, pois já não sou eu, mas instrumento. Meu braço treme, lento, envolvido pelas finas brumas, que devagar giram o líquido, perdido. O líquido gira, e também giram meus sentidos.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O Homicídio Perfeito

A  deformidade  de  meu  caráter  jamais  me  envergonhou. Espírito astuto e dissimulado, nunca me expunha a quem quer que seja.   A minha  alma  exsudava  humores  peçonhentos,  malgrado imperceptíveis, mas eu bem sabia como, sorrateiramente, inocular o meu veneno. Era eu um predador cauteloso. Como uma serpente astuta e  insidiosa, mergulhava e recolhia, num átimo de um único segundo, as  presas precisas – profundas e aguçadas –, sem que a vítima o  percebesse.  Isto mesmo: só ensaiava o meu bote certeiro quando se menos esperava.

A Última Execução


Sou filho do ferreiro Alphonse e de Nelly, uma ex-cortesã da taverna dos prazeres. Mamãe deveria morrer em alguns dias. Está muito mal e vem sofrendo demasiadamente com a lepra. Uma peste que ataca a tez e impinge círculos purulentos por todo corpo. Mas ela ainda nutre alguma esperança. Papai se sentou na cadeira de rodas, um hediondo patíbulo, e nunca mais se levantou. Uma viga de ferro caiu sobre suas costas, tornando-o aleijado para todo o sempre. Agora, espera – ansiosamente - a morte escolhê-lo como o próximo. Também é leproso! Ele quer morrer, ela quer viver.


terça-feira, 1 de outubro de 2013

A Morte me Esqueceu

Hoje completo 159 anos. Acho que o vento do tempo passou por mim despercebido. Já não sei se é privilegio ou condenação a viver tanto.  Devo ser o humano mais velho do planeta. Digo isso, porque nunca revelei minha idade real para ninguém. E não me interesso em casos de longevidade. Tenho horror a ficar em evidência. Ficar famoso por ser muito velho não me apraz. As pessoas ficariam me olhando como se eu fosse um museu ambulante. “Olha, lá vai um homem com quase 160 anos”. Isso me incomodaria. Aceito a minha idade naturalmente, essa realidade não posso mudar. E ninguém precisa se preocupar com isso. Cada um que viva o seu tempo ou seus tempos.