quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Os Vivos e os Mortos

Estava atrasado!

Quando cheguei ao velório, o primeiro fato que me chamou a atenção dizia respeito a presença de Helena, sentada e prostrada ao abandono no canto mais discreto da capela. Levei algum tempo até perceber que ela encontrava-se alheia ao que ocorria ao seu redor. A falta de percepção para aceitar o óbvio se constituía em uma das duas perspectivas sempre presentes naquelas ocasiões especialmente fúnebres: havia os que encontravam-se mortos, e sabiam disso, mas recusavam a partida derradeira por pendências pessoais mal resolvidas. Havia os que estando mortos, não se davam conta desta condição.

Helena, infelizmente, encontrava-se na segunda perspectiva: ela não sabia que estava morta!


terça-feira, 29 de outubro de 2013

O Trem de Carne da Meia-Noite - Clive Barker (Parte 2)

Um homem barbado derrubou com o cotovelo a xícara de café de Kaufman. — Merda! — disse ele.

Kaufman virou-se na banqueta para evitar o café que pingava do balcão.

 — Merda disse o homem outra vez.

— Está tudo bem — disse Kaufman. 

Olhou para o homem com um leve ar de desprezo. O desajeitado filho da mãe estava tentando absorver o café com um guardanapo que, aos poucos, se transformava numa papa úmida. Kaufman ficou imaginando se aquele idiota de cara corada e barba malfeita seria capaz de matar alguém. Haveria naquele rosto de comilão algum sinal, alguma pista, talvez o formato da cabeça ou a expressão dos olhos pequenos, que denunciassesua verdadeira natureza?

O homem se dirigiu a ele.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O Trem de Carne da Meia-Noite - Clive Barker (Parte 1)

Leon Kaufman não era mais um forasteiro naquela cidade. O Palácio das Delícias, como a havia chamado nos dias de sua inocência. Mas isso era quando morava em Atlanta, e Nova York era ainda uma espécie de terra prometida, onde qualquer coisa e tudo eram possíveis.

Agora Kaufman já morava há três meses e meio na sua cidade de sonho, e o Palácio das Delícias não parecia tão delicioso assim. Teria realmente passado apenas uma estação do ano desde que descera na Estação Rodoviária Central e olhara para a Rua 42, na direção do cruzamento com a Broadway? Tão pouco tempo para perder tantas ilusões acalentadas?
Agora, só em pensar na sua ingenuidade, sentia-se embaraçado. Constrangido, lembrava de ter dito em voz alta: “Nova York, eu te amo”. Amor? Nunca! Tinha sido, se tanto, um entusiasmo passageiro. E agora, depois de três meses de vida com o objeto de sua adoração, passando dias e noites dentro dela, a cidade havia perdido toda a aura de perfeição. Nova York era apenas uma cidade.


A Fazenda dos Florence



Sempre soube dos rumores a respeito da propriedade dos Florence. Na pequena cidade onde nasci nenhuma criança se aventurava ao longo da estradinha de terra que levava aos portões enferrujados da velha fazenda ao sul. Desde cedo, em suas residências, lhes era ensinado a temer a estranha família. Ao longo dos anos faziam com que acreditassem que os Florence eram malvados, perigosos, diabólicos. Mas era mais do que isso. Lembro-me de que, certa noite, ao pé da lareira com meu pai, o ouvi contar para todos nós, de sua casa, como a triste família se havia perdido nos caminhos das trevas; como havia trocado as bençãos de Deus pelas falsas promessas de fortuna feitas pelas coisas que andam no inferno e que eles evocavam graças aos poderes da velha matriarca. Ainda me causa calafrios a maneira como meu pai parecia acreditar em tudo o que contava e a forma como ele nos advertia para manter distância, pois aquelas pessoas eram monstros reais que, em noites enluaradas, vagavam soltos dentro dos limites da velha propriedade. "Foram os demônios que os mudaram, meus filhos" dizia meu pai, e seus olhos faiscavam iluminados pelas chamas vermelhas do fogo voraz na parede.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O Fantasma da Casa 666


Só agora, depois de 30 anos, minha mãe revelou-me o mistério sobre a morte da senhora Margot. Por muito tempo, durante a minha infância, essa curiosidade me perseguiu. Dizem que os fantasmas da infância, diante dos problemas da vida adulta, costumam ser esquecidos, guardados em algum canto da mente. Falam também que a criança que fomos, a exemplo dos fantasmas, nunca morre, simplesmente fica escondida dentro de nós. Talvez por esse motivo, hoje, dia em que completo 42 anos, foi que, vasculhando as teias de aranha dentro da minha cabeça, encontrei a criança curiosa que um dia fui. Corri até a casa da minha mãe e repeti uma pergunta feita a três décadas: como morreu a proprietária da casa 666?

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Alucinação


– Sente-se, por favor. – Disse o Dr. Offenbach.

A mulher obedeceu.

Offenbach, de mãos em concha, uniu os longos dedos pelas extremidades e perscrutou a figura atentamente. A senhora Sílvia Anabel Pissarro de Quiroga era uma mulher na casa dos trinta anos. Gestos comedidos, poderia insinuar uma grave elegância, não fosse todo aquele esforço em conter as torrentes de um espírito atribulado. Estranhamente pálida, tinha o rosto oval e os cabelos quase negros. Os olhos eram uma escura sombra de cansaço. A aflição no olhar a deixava singularmente bela. Agradeceu ao médico com um leve arquear de sobrancelhas.

Rosa aos Mortos


Nos Longínquos anos de 18..., quando o mundo ainda era um lugar assaz aprazível de se viver, eu, em meus dezenove anos, travava conversa com Mr. Oliver, já em seus avançados noventa. Naquela época, viver tanto assim era uma dádiva, mas não para Mr. Oliver. Seus ataques epilépticos aconteciam com uma frequência cada vez maior: Os espasmos e acessos de tosse eram praticamente intermináveis. Eu, vendo-o definhar e sofrer, nada podia fazer senão visitá-lo sempre que possível, contando notícias sobre o mundo. Ele, com seus olhos fechados, ouvidos apurados, escutava a tudo, concordava vez ou outra e, raras vezes, adicionava algum comentário a nossa conversação. Então, quando, em certa ocasião de longo silêncio meditativo, ele falou-me em tom emocionado e voz límpida, não pude deixar de me surpreender.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O Homem que Queria Matar o Diabo


Tudo começou nos idos de 1896, lá pras bandas de Juazeiro, uma cidadezinha encalacrada nas caatingas do interior da Bahia. Eu trabalhava nos roçados de café na fazenda do coronel João Evangelista Pereira e Melo, homem de posses e de respeito reconhecido por aquelas terras de fim de mundo. Pedro Henrique, o filho estudado do velho João Pereira, estava muito doente, mais pra lá do que pra cá, tísico, botando sangue pela boca, e tossindo uma tosse seca, catarrenta, coisa feia que só vendo: