domingo, 30 de novembro de 2014

A Senhora

Billy Weaver partiu de Londres no vagaroso trem da tarde, com baldeação em Reading. Já eram nove horas da noite quando finalmente chegou em Bath. A lua começava a se levantar por cima das casas do outro lado da estação, num céu claro e estrelado. Mas o tempo era bastante frio, e o vento parecia uma lâmina de gelo a golpear-lhe as faces.

— Com licença, mas será que existe algum hotel razoavelmente barato aqui por perto?

— Experimente o Bell and Dragon — respondeu o porteiro da estação, apontando para um dos lados da rua. — Talvez tenham vaga. Fica a cerca de 500 metros daqui.

Billy agradeceu, pegou a valise e partiu a pé para o Bell and Dragon. Nunca antes estivera em Bath, não conhecia ninguém que morasse ali. Mas o Sr. Greenslade, da matriz em Londres, dissera-lhe que era uma cidadezinha adorável.


domingo, 16 de novembro de 2014

A Faca

Edward Dawes refreou sua curiosidade o mais que pôde, depois ajeitou seu corpo imenso na cadeira em frente a Herbert Smithers. Inclinando-se por cima da mesa, ficou observando-o limpar o objeto enferrujado que tinha nas mãos. Era uma faca — e quase mais nada se podia ver. Não entendia por que Smithers parecia tão preocupado com ela, no estado em que ela se encontrava. Edward Dawes acariciou seu copo e ficou esperando que o outro falasse.

Mas, como Smithers continuasse a ignorá-lo, deu o último gole e baixou o copo com força, deixando-o em cima da mesa.

— Esta faca não é lá muito bonita — observou desdenhosamente. — Diria que nem vale a pena limpá-la.

— Ham, ham...

Smithers, com este único comentário, continuou a limpar a faca cuidadosamente, raspando com uma lima a crosta de sujeira.

— O que é isso? — indagou Gladys, a empregada de seios exuberantes, do bar Três Carvalhos, que se aproximara para recolher os copos vazios.

— É uma faca — Smithers condescendeu em explicar. — Uma faca antiga e rara, que me pertence porque a achei.

Foi a vez de Dawes proferir uma exclamação, afirmando em voz alta para o bar inteiro, embora só os três estivessem presentes àquela hora:

— Ele pensa que é muito valiosa...

— Não me parece muito valiosa — disse Gladys com franqueza.

— Parece-me uma coisa feia e enferrujada que devia ser devolvida ao monte de ferro velho de onde veio.

O silêncio de Smithers foi mais eloqüente do que se tivesse dito alguma coisa. Umedeceu com saliva um lenço sujo que tirara do bolso e esfregou uma pequena mancha vermelha que havia perto da ponta, ainda coberta de sujeira. O pequeno ponto vermelho foi aumentando, emergindo da crosta de sujeira como uma pedra lapidada de um brilho vermelho muito grande.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Morte Fora de Época

A Srta. Witherspoon estava agachada, remexendo a terra no canteiro de ervas com uma trolha. Disse a si mesma, mentalmente, que devia tomar cuidado para não remexer muito perto, a fim de não afetar as delicadas raízes das ervas. Era uma jardineira meticulosa e hábil, como os resultados bem atestavam. Suas flores e ervas eram as mais viçosas da cidade. Eram a inveja de todos, se os vizinhos tivessem a virtude de confessá-lo.

sábado, 1 de novembro de 2014

Os Homens sem Ossos

Estávamos carregando o Claire Dodge de bananas, em Puerto Pobre, quando um homem pequeno e de aspecto febril subiu a bordo. Todos se afastaram para lhe dar passagem — até mesmo os soldados que guardam o porto, armados de rifles Remington e usando perneiras polidas, apesar de andarem descalços. Eles recuaram porque achavam que aquele homem era um possuído, um louco. Embora não fizesse mal a ninguém, era perigoso e o melhor que se poderia fazer era deixá-lo sozinho e em paz.

Os lampiões de nafta sibilavam e do porão vinha o grito estrondoso do capataz da turma que trabalhava lá embaixo:

— Fruta! Fruta! FRUTA!

O chefe da turma que trabalhava no cais gritava a mesma coisa, enquanto seus homens iam jogando para o porão cachos e mais cachos de bananas verdes e brilhantes. Só isso bastaria para que a ocasião fosse memorável — a noite magnífica, o corpo luzidio do capataz negro refulgindo à luz dos lampiões, o verde com jade das bananas, os cheiros diversos do porto. De um dos cachos de banana saiu de repente uma aranha cinzenta e cabeluda que assustou a tripulação e interrompeu a cadeia de carregamento de banana, até que um garoto nicaraguano, com uma risada, matou-a com o pé, afirmando que era inofensiva.

Foi então que o louco subiu a bordo, sem que ninguém o impedisse, e perguntou-me:

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O Caminhão Do Tio Otto - Stephen King


(Sem Formatação)

Sinto um alívio enorme escrevendo isto. Não tenho dormido bem, desde que
encontrei meu tio Otto morto, e houve ocasiões em que cheguei a perguntar-me se não
ficara louco — ou se ficaria. De certo modo, tudo seria mais misericordioso se eu não
estivesse com o objeto real aqui em meu estúdio, onde posso olhar para ele, pegá-lo e
avaliar seu peso, se me der vontade. Contudo, não quero fazer isso; não quero tocar essa
coisa. Só que, às vezes, eu quero.

Caixa Preta

Depois de puxado o gatilho, era sinistra tal lógica e mortal a sua mecânica.

A bala desprendida do pente percorria o cano de alma lisa em busca do crânio para onde foi mirada, e isso era uma viagem sem parada ou retorno. Veio o disparo, veio faísca e enquanto a vítima, de músculos tesos, esperava resignada a certeza de sua chegada, não imaginou também, naquele ínfimo instante, acabar sendo platéia de tão belo e inesperado cinema.

Assistiu em luzes de sonhos e lembranças a criança que era no colo de sua mãe, viu os seios da primeira mulher que teve, aquela medalha ganha na natação dos jogos escolares, o sorriso tímido de sua filha e por última cena se viu menino no quarto onde passou a infância, seu falecido pai lhe desejou boa noite apagando a luz, fechou a porta deixando-o sozinho num escuro denso e de silêncio singular.

Era agora um cadáver ao chão, vizinho de uma arma a certa distância e de uma multidão que assomava ao redor cuidando para não pisar em seu sangue. Alguns cogitaram suicídio, outros assassinato, ninguém parecia ter razão. Questão de tempo para tal resolução, porém nunca compreenderiam os motivos daquele sorriso pálido e bem aventurado, e nunca saberiam em que infinito aqueles olhos aperolados estariam mirados.

Fonte: http://www.contosdeterror.com.br/
Autor: Daniel Mafra

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Máscara do Mau

Um domingo como outro qualquer, talvez um pouco nublado, cinza.

Roberto e a família: o filho caçula Mauro, a filha adolescente Roberta e a mulher Lidia, resolveram passar o domingo na casa de praia da família, ele tinha uma surpresa de amor, o Engenheiro festejava o aniversário de casamento, porém em uma escolha surpreendente a mulher preferiu passar na casa de praia de praia, herança dos pais dela.

Roberto odiava aquela casa, anos atrás ocorreu um evento muito triste, Lidia e ele era simples namorados, um evento que ele queria esquecer para sempre, estranhamente isso não afetava a mulher que adorava a casa, eles nunca se entenderam sobre a casa, recentemente um amigo da família, senhor Conrado fez uma proposta e Roberto esperava a decisão de Lidia.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Sou Melhor Do Que Você

Nicki não se encontrava em casa quando houve o telefonema. Sua colega de apartamento estava excitada demais para apresentar um relatório coerente. Ela não tinha muita certeza do lugar em que o Sr. Wolfe vira Nicki atuar: se na peça da temporada de verão, na aparição de dois minutos em Gypsy ou no comercial de televisão para um aspirador. Mas que diferença isso podia fazer? Nicki deveria apresentar-se no Broadhurst Theatre, às 4 em ponto, se quisesse ter uma audiência. Nicki ficou tão excitada que saiu da pensão sem nem mesmo passar um pente pelos cabelos louros emaranhados. Percorreu a pé os 13 quarteirões até o teatro, não querendo permitir-se a indulgência de um táxi. Poderia conseguir um lugar na peça, é certo, mas o elenco vinha sendo escolhido há mais de um mês e agora só deveriam restar os papéis secundários.

Havia apenas cinco pessoas no palco quando Nicki chegou. Quatro mal a olharam quando ela avançou, hesitante, até a frente do palco. O quinto, um homem de aparência ainda jovem, o rosto ossudo, vestindo um pulôver, aproximou-se dela, sorrindo. Nicki sabia que era Wolfe, o diretor, importado de um teatro dos subúrbios, em sua estréia na Broadway, com uma nova comédia.

— Eu a conheço — disse ele. — Você é Nicki Porter. Obrigado por ter vindo.

— Eu é que lhe agradeço — disse Nicki tímida, usando sua voz rouca e sonora.

Nicki não era extraordinariamente bonita nem mesmo provocantemente comum. A sua melhor característica era a voz.